sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Entrevista Lady Mirian Black


“Nós bruxos não barganhamos com nossos deuses como fazem os cristãos – promessas – ‘eu te dou isso e você me dá aquilo’ , porque isso é ridículo!”


LADY MIRIAN BLACK, PRATICANTE DAS CRENÇAS CELTAS E AUTORA DO LIVRO “BRUXAS”, VIVE DE ACORDO COM A ANTIGA FÉ, HERDADA NATURALMENTE DE SUA MÃE, TRILHANDO UM CAMINHO DE LUZ E SABEDORIA

 

Mirian Black (41), neta de escoceses e italianos e natural de São Caetano do Sul, grande São Paulo, pratica magia celta desde que se conhece por gente. Sem encarar as práticas celtas como religião e sim como um conjunto de crenças que permite ao adepto liberdade para praticar Magia, vive de acordo com a Antiga Fé, participando, inclusive, de eventos relacionados com a cultura pagã, tais como a Convenção de Magos e Bruxos de Paranapiacaba, que acontece anualmente, e feiras esotéricas.

Pesquisadora e conhecedora da civilização celta, Mirian também é escritora e autora do livro “Bruxas”, lançado em 2012 pela editora Ícone, que aborda temas como Rituais, práticas da magia celta, civilização celta e alfabeto Ogham. Formada em direito, onde atua na área jurídica empresarial, é casada e mãe de dois filhos, que também são ensinados a viver de acordo com as práticas celtas, sempre com respeito à Natureza e a todos os seres invisíveis que ali habitam. Nessa entrevista, Mirian conta um pouco sobre suas crenças, costumes e seu livro “Bruxas”.



A: Há quanto tempo você é praticante da religião celta?

M: Pratico a Fé Antiga (sem considerá-la religião) desde sempre, pois minha mãe já a praticava. Fui criada pela minha avó materna, de descendência italiana, que era católica. Sendo assim, minha avó Nair me levava na igreja aos domingos. Até então, minha mãe nunca tinha me falado nada sobre a Antiga Fé, respeitando a crença da minha avó. Quando eu tinha sete anos, pedi à minha avó que não me levasse mais na missa com ela, pois me sentia extremamente mal na igreja e não gostava de ir. Concomitantemente, em todos os lugares que eu ia – grutas, campos, etc – costumava pegar uma pedra de lembrança, pois sempre adorei pedras e cristais. Minha mãe, vendo que eu realmente não seguiria a religião católica e que era muito ligada à Natureza, me disse que era praticante de Magia e começou a me ensinar todo o tipo de Magia, especialmente a Celta, além de práticas de terapias alternativas como Cristaloterapia, Radiestesia e Radiônica, etc.

A: Você sofreu algum preconceito em relação às pessoas que não conhecem e/ou não entendem a prática pagã? 

M: Não, porque eu sempre agi com profundo respeito pelas crenças alheias, então eu evitava perguntar “qual a sua crença” para as pessoas e, consequentemente, não tinha que dizer qual era a minha, e quando eu tinha contato com pessoas que eu sabia que eram evangélicas ou muito católicas, se elas me perguntavam qual minha religião, dava resposta evasiva como “sou espiritualista”. Mas dois fatos são interessantes: 1) dificilmente as pessoas em geral, e principalmente estas, perguntavam minha crença; e 2) elas gostavam de mim. Então, quando após nos conhecermos bem, eu lhes dizia que era bruxa ou praticante de Magia, as reações eram engraçadas: algumas diziam “Você não pode ser uma bruxa, você é tão boazinha!” ou “Sério? Então, existem bruxas boas?”. Essas reações ilustram bem como a figura da bruxa má criada pela igreja católica na Idade Média está enraizada na mente das pessoas. Exatamente por esse motivo, fiz questão de chamar meu livro “Bruxas”, com o intuito de quebrar, ou no mínimo abalar este estigma negativo imposto pela instituição católica e perpetrado ainda hoje por grande parte das religiões cristãs ou não. 

A: Você costuma praticar todas as celebrações celtas?

M: Pratico e sempre pratiquei as celebrações anuais do calendário celta, especialmente Beltaine e Samhain. Meu clã, hoje constituído por meu marido, dois filhos, dois cachorros e três galinhas (risos), certamente vivemos segundo nossa crença na Fé Antiga – nos deuses, nos espíritos (sídhe), no povo encantado (fadas dentre outros). As crianças criadas na Fé Antiga aprendem desde cedo a amar e respeitar a Natureza com tudo que a integra – minerais, terra, vento, Sol, Lua, plantas, animais, fadas, etc. Aprendem desde cedo que somos responsáveis por todos os nossos atos – para os bruxos não existe “culpa”. Culpa é um conceito cristão. Nós bruxos temos responsabilidade, isto é, sabemos que toda a ação implica em uma reação. Consequentemente, somos totalmente livres para fazermos o que quisermos, sempre tendo em mente que iremos responder de acordo com nossos atos, e que, portanto, não é nada inteligente prejudicar os outros, pois automaticamente atrairemos para nós o mesmo mal em maiores proporções de acordo com o nosso conhecimento.

A: Já fez algum ritual que não deu certo ou que se arrependeu dos resultados?

M: Ah, sim, com certeza já me ocorreram as duas coisas (risos). Bruxos normalmente são cientistas: vamos testando as energias, nosso potencial. E alguns encantamentos nem sempre produzem resultado, quando não, produzem algum resultado adverso. Mas não causei grande estrago a mim mesma (risos), porque como disse, jamais uso a Magia para interferir no livre-arbítrio alheio. Nada que não pude reverter com dois ou três encantamentos.

Gorsedd (espécie de altar) de Mirian Black. Em cada canto há os instrumentos encantados de Draíocht - Magia Druídica ou Magia Avançada, juntamente com o Oráculo Ogham, o livro encantado escrito com o alfabeto Tengwar (dos elfos, criado por Tolkien) e espadas fincadas ao chão, uma de Mirian e outra de seu marido.

A: Você também acredita no Deus Cristão?

M: Não, assim como sei que não existe o diabo. Eu acredito que a Criação, o poder da Criação e a Criadora é uma essência feminina e masculina em perfeito equilíbrio e integração, que eu gosto de chamar de Grande Mãe e Grande Espírito, mas na verdade é Uma (o poder de criar, de gerar vida é essencialmente feminino). Os deuses que eu cultuo são deuses de amor e compaixão, zelosos por seus filhos, sempre nos sustentando nas palmas de suas mãos, ainda que os ignoremos. Minha Mãe e meu Pai não são deuses de medo e punição, porque se assim fossem, não seriam melhores que nós humanos, e consequentemente, não seriam divindades, isto é, seres superiores e magníficos que criaram a tudo que existe. A Grande Mãe e o Grande Espírito não nos dizem o que fazer – eles nos deram todas as habilidades e potenciais que precisamos, e esperam que nós os afloremos e saibamos usá-los com sabedoria e amor, pelo bem maior de todos, pois se assim não o fizermos, angariaremos as reações negativas e teremos que arcar com elas. Meus deuses também não me dão nada, porque eu tenho plena capacidade de conseguir o que eu quero por minhas próprias mãos. O que eles fazem é me proteger sempre e me orientar quando eu peço, quando estou confusa ou em situação difícil. Por isso, nós bruxos não barganhamos com nossos deuses como fazem os cristãos – promessas – “eu te dou isso e você me dá aquilo” porque isso é ridículo! Primeiro que nada do que nós possamos oferecer aos deuses eles já não têm – tudo é deles, e segundo porque eles já nos deram uma parte de si mesmos – nosso espírito, que é uma fagulha divina e, portanto, contém todas as potências. Cabe a nós fazermos nossa parte e lutarmos pelo que queremos, com hombridade e honra. Esse deus criado pelos cristãos patriarcalistas teve e tem um único propósito: o de dominar os mais fracos pelo medo. Bom, eles tiveram certo sucesso, mas a Era da libertação das mentes já começou e o tempo de dominação está passando (ainda bem!). 

A: Você já cogitou abandonar a crença para seguir outras?

M: Não, porque ser bruxa e praticar Magia está na minha essência, faz parte do meu ser. Como pesquisadora de religiões e cultos, especialmente os antigos mas não só, estudei e participei de várias instituições religiosas como por exemplo o Kardeccismo, a Igreja Messiânica, etc (nada de igrejas evangélicas e cristãs, porque nunca tive estômago para isso) e cada uma têm seus prós e contras como tudo e todos em Gaia. Conhecer o diferente sempre é válido e nos traz experiência. Mas minha alma sempre foi e sempre será de bruxa – eu amo praticar Magia!


 A: Quanto tempo o livro "Bruxas" demorou para ser escrito?

M: Ao todo, foram cerca de quatro anos, mais ou menos, entre coletar materiais de estudo e escrever o livro propriamente dito. Isso porque eu já vinha há uns quatro anos (desde 2004 que eu me lembre) ensaiando um livro sobre Magia, só não conseguia definir como seria esse livro. Mas a partir de 2008, consegui encontrar o caminho e prosseguir até concluir o Bruxas Celtas.


A: Pretende escrever mais livros com o mesmo tema?

M: Com certeza, com este e muitos outros temas ligados à Magia. Tenho muitos projetos de livros. Aliás, o Bruxas é um projeto cujo foco é a figura feminina de povos antigos (preferencialmente do período pré-cristão mas não só) praticante e oficiante da religião daquele povo. Por isso estou coletando material para dois outros Bruxas, mas vão demorar um pouco. Tenho uma obra pronta – “Azerik-Portais da Magia” – escrito em co-autoria, que é um livro com 25 cartas, cujas aplicações são para o auto-conhecimento, meditação e uso oracular. Esse será publicado em 2016. E tenho dois livros só sobre Ogam – o alfabeto celta – que estou preparando. Dentro da cultura celta, ainda tenho mais material a ser explorado e vou, no devido tempo.

Livro "Bruxas"

2 comentários:

  1. Lindo ver o amor que ela tem ao que pratica! É bonito ver como ela encontrou o caminho no qual mais se identifica. Que continue fazendo o que gosta! Nada mais libertador do que isso! Uma pena que ela mesmo pesquisando religiões não tenha se infiltrado mais na fé cristã a ponto de entender melhor o assunto. Que um dia ela consiga, vai enriquecer o trabalho dela quanto comparação e compreensão das diferenças religiosas. Blessed be!

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  2. Oi, Camila. Obrigada por expor seu ponto de vista. Bjs e bênçãos...

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